Nota de falecimento
Geraldo Batista
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Zé das Cuias, profundamente consternado, comunica aos parentes, amigos e cidadãos brasileiros desolados, como ele, o falecimento de sua mais estimada e preciosa parenta, covardemente assassinada na data de 12 de setembro de 2007, em Brasília, mais precisamente do no prédio do Senado Federal da combalida República Envergonhada do Brasil. Uma venerável senhora de idade avançada, mas ainda de muita serventia, que atendia pelo nome de Decência Honestidade de Vergonha na Cara foi vítima de 46 facadas pelas costas, desferidas por 46 senadores sem nenhum pudor, cuja verecúndia, como falavam seus antepassados portugueses, foi jogada na lata do lixo. O hediondo crime foi perpetrado em defesa de um meliante chamado Renan Calheiros, indivíduo sem nenhum escrúpulo que cometeu inúmeras falcatruas, embora negue sua autoria como acontece com todos os demais criminosos. Se aqui fossem enumeradas todas as suas falácias, encher-se-iam várias páginas e não haveria dinheiro que chegasse para pagar aos jornais por esta triste nota de pesar e de desespero. O crime foi cometido a portas fechadas como se fosse possível esconder da nação seu vergonhoso delito. Mas, como sabem de sobejo os senhores, os malfeitores costumam trabalhar às escondidas. Ali, trancados, os sicários transformaram o sagrado território do Senado em um ambiente conspirador e nojento como se a casa, que deveria ser do povo, pudesse se transformar em um grande prostíbulo, cujos inquilinos não podem, nem de longe, serem comparados às legítimas prostitutas, que se comportam com muito mais ética do que os 46 senadores. Na verdade, eram quarenta, como convém a uma quadrilha, mas seis se esconderam atrás do suspeitíssimo direito de abstenção, tornando-se igualmente cúmplices.
O enlutado Zé das Cuias, comunica também aos amigos que é ainda do tempo em que homem não deveria chorar, mas ao tomar conhecimento da morte de sua querida parenta não se conteve e chorou copiosamente vergado sob o peso da desgraça que se abateu sobre sua querida pátria. Na boca de noite, quando foi apanhar sua neta no colégio, esta lhe perguntou: “Vovô, porque você está triste?” Minha querida Karolina, estou triste porque descobri que o país com que eu sonhei para meus filhos e para meus netos não existe mais. Hoje, a desonestidade virou coisa banal a roubalheira, coisa comum e a honestidade, coisa de gente careta.
Antigamente, o PT era o Partido dos trabalhadores, depois que assumiu o poder virou Partido dos Traidores. O seu discurso em defesa da ética e da honradez foi para o beleléu. Agora a ordem é meter a mão, enquanto Braz é tesoureiro.
Depois de redigir sua inusitada nota de falecimento, Zé me procurou para saber minha opinião sobre o texto.
Zé, este seu texto pode até ser meio maluco, mas depois do que viu no Senado, tudo é permitido. O povo está revoltado, pena que depois de mais um carnaval vai se esquecer de tudo e voltar a eleger a mesma cambada de cabras safados.
- Seu moço, você tem coragem de publicar esta nota?
Tenho, Zé, só não sei se o redator tem aquilo suficiente roxo para inserir em sua revista. Meu palpite é que ele tem coragem para esta empreitada. Vamos torcer.